A respeito de interpretação bíblica há uma frase muito interessante que diz: “texto fora do contexto é pretexto.” Contexto é assim definido pelo Dicionário do Aurélio: 1) Aquilo que constitui o texto no seu todo;  2) Encadeamento das idéias dum escrito. No nosso caso, isto significa que não podemos saber exatamente o que um versículo quer dizer, a menos que o observemos dentro do assunto no qual está inserido, ou seja, o contexto no qual foi escrito. Podemos afirmar também que contexto é o que está escrito antes e depois do versículo ou versículos que citamos ou ensinamos.

A título de exemplo citarei alguns dos vários versículos que são citados fora do contexto fazendo com que as pessoas entendam-nos de forma errada. Quando alguém se decepciona com uma outra pessoa é comum ouvirmos: “é por isso que a Bíblia diz: Maldito o homem que confia no homem, dando a entender que não devemos confiar em ninguém. Mas ao observarmos o contexto veremos que o autor está alertando para o perigo de colocarmos nossa confiança e esperança de livramento em outra pessoa que não o Senhor. O restante do versículo deixa isto bem claro quando diz: “faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

Outro versículo mal empregado é Filipenses 4:13. Ele está na boca dos “supercrentes” e até mesmo em adesivos nos automóveis. O versículo diz: “tudo posso naquele que me fortalece.” A idéia transmitida é a de que o crente tem poderes. Mas o que exatamente Paulo queria dizer com isso? O contexto nos mostra que o apóstolo está dizendo que com Jesus ao seu lado ele pode passar por qualquer situação. Pode passar pela pobreza, pela humilhação ou honrarias, pela fartura ou fome, abundância ou escassez (Cf.vv. 11 e 12). Existem outros exemplos, mas por enquanto estes bastam. Vemos então a importância do contexto para que entendamos com mais exatidão o que o Senhor quis transmitir quando fez com que Sua Palavra fosse registrada.

Passo agora a falar de um versículo que tem sido usado por irmãos exclusivistas e semi-exclusivistas para tentar respaldar suas idéias. Refiro-me a II Coríntios, onde lemos: “Por isso, retirai-vos do meio deles, separai-vos, diz o Senhor; não toqueis em coisas impuras; e eu vos receberei, serei vosso Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso” (6:16, 17) Já estou “careca” de ver este versículo sendo citado para querer me provar que tenho que me apartar totalmente dos meus irmãos denominacionais. No presente artigo, pretendo provar que estas palavras não podem ser usadas para referir-se a irmãos em Cristo, por mais que eu discorde deles em alguns pontos de vista.

O contexto nos mostra que Paulo está falando do que conhecemos como “Jugo Desigual” entre crentes e incrédulos. Ele está proibindo qualquer tipo de associação íntima, sociedade, casamento etc. entre um salvo e um perdido.

Na verdade Paulo está citando o profeta Isaías quando este fez um apelo ao povo de Israel. “O apelo mencionado é tirado de Isaías 52:11, onde a nação e, principalmente, seus sacerdotes foram avisados a escapar da Babilônia e não tocar em coisas imundas. Ele (Paulo) podia ver claramente que os coríntios estavam numa situação parecida com a de Israel na Babilônia e que o perigo de contaminação, através da idolatria, estava por perto” (Comentário Ritchie pp. 118,119).

O nome Babilônia significa “porta dos deuses”. “Visto que a história da Babilônia é muito longa, temos uma grande variedade de crenças e instituições religiosas... Antigas divindades sumérias foram assimiladas pelos semitas, após o tempo da primeira dinastia da Babilônia (cerca de 1800 A.C.). A versão final da biblioteca de Nínive, no século VII A. C., enumerou os deuses em mais de 2.500. Mas em qualquer período isolado, o número de deuses sempre foi bem menor. Contudo, isto mostra quão politeísta era aquela gente” (Enciclopédia de Bíblia  Teologia e Filosofia, vol. 1, p. 425). Falta espaço no presente artigo para enumerar o panteão de deuses e deusas daquele povo. É importante observar que mesmo sendo idólatra, aquele povo tinha noções de moralidade com leis proibindo o comportamento sexual extramarital, o adultério, a sedução e o estupro. O homossexualismo era considerado uma falta grave. Mas a verdade é que este senso moral nem sempre, como em todos os povos, era praticado no dia a dia.

No Novo Testamento lemos sobre a Babilônia espiritual que tipifica toda a sorte de prostituição espiritual, em especial a idolatria. Em Apocalipse 17 e 18 entendemos que Babilônia se refere a cidade de Roma que havia se tornado a capital do Império Mundial. Aqui ela é caracterizada com maior severidade e é chamada de “mãe de todas as meretrizes, fonte de todas as abominações da terra, aquela na qual transbordam as abominações, imundícias e prostituição e que vivia na luxúria”. Aqui também há um chamado para apartar-se. Vejamos: “Ouvi uma outra voz do céu dizendo: Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos; porque os seus pecados se acumularam até o céu, e Deus se lembrou dos atos iníquos que ela praticou” (Ap 18: 4,5).

O contexto bíblico nos mostra que este chamado é para fugir das contaminações do mundo e da idolatria da Roma Espiritual. Os coríntios não foram chamados a apartar-se da cidade de Corinto e sim da mentalidade idólatra e imoral na qual viviam seus concidadãos. Paulo escreveu: “Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros; refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois, neste caso, teríeis de sair do mundo.”(I Co 5:9,10). Também Daniel, que decidiu não se contaminar com as comidas sacrificadas aos ídolos babilônicos. Ele continuou a viver na Babilônia, mas sem participar dos seus pecados. Assim também os crentes devem continuar a viver no mundo, mas sem participar da mentalidade mundana.

Pergunto aos leitores, podemos dirigir estas palavras a irmãos em Cristo? Devemos nos referir assim a pessoas pelas quais o Senhor Jesus derramou seu precioso sangue e que são nossos companheiros de eternidade? Creio que não, pois Deus jamais compararia os irmãos denominacionais aos terríveis moradores da Babilônia Antiga ou aos atuais adeptos da atual Babilônia Espiritual. Eles também são Seus filhos amados! Portanto, jamais coloquemos na boca de Deus o que Ele não disse. Isto é pecado!

Contudo a verdade é que a Bíblia nos manda apartar de alguns tipos de crentes. Sim, há cristãos com os quais não devemos ter nenhuma comunhão. Continuando a citação acima Paulo afirma: “Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais.”( I Co 5:11). Ou seja, não devemos manter comunhão íntima com uma pessoa que se diz cristã, mas que no seu viver não dá mostras do caráter de Cristo. Não importa se sua igreja local tenha ou não uma placa, não importa a qual ramo do cristianismo esteja ela ligada (mesmo que ao nosso), esta pessoa não deve fazer parte da nossa comunhão cristã.

Mas há outro tipo de crente com o qual não devemos nos associar. São os que andam promovendo divisões. Senão vejamos: “Evita o homem faccioso, depois de admoestá-lo primeira e segunda vez, pois sabes que tal pessoa está pervertida, e vive pecando, e por si mesma está condenada” (Tt 3:10, 11  negrito meu).

A palavra traduzida como “homem faccioso” é hairetikos e ocorre somente aqui na Bíblia. O substantivo hairesis é usado também  com o significado de partido, seita, “panelinhas partidárias” (cf. I Co 11:19; Gl 5:20; At 5:17; 15:5).  Podemos afirmar que o termo se refere àqueles que promovem divisões ao propagar suas opiniões pessoais acerca de opiniões que não são aceitas pela maioria das igrejas bíblicas. Refere-se àqueles que deliberadamente vivem a criar facções para si, não importando se as igrejas locais sofrerão prejuízo com isso.

O alerta não é dado somente aos crentes de Creta, mas também ao cristão de Roma. “Rogo-vos, irmãos, que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes; afastai-vos deles” (Rm 16:17  negrito meu).

Aqui no Brasil há pessoas que vivem a viajar para propagar suas idéias divisionistas. Parece que este é o seu principal “ministério”. Têm pessoas dividindo igrejas locais por causa do tipo de pão que deve ser usado na ceia do Senhor. Outros para implantar a idéia do cálice único dividem as igrejas (unificam o cálice e dividem igrejas). Outros, querendo uniformizar a forma de culto, dividem igrejas. Outros, ainda, fazem ao mesmo tempo duas ou três das coisas citadas.

Já adianto que não tenho absolutamente nada contra as igrejas que usam um só cálice e nem contra as que decidiram usar pão sem fermento etc. Esta é uma decisão local! Não há nada errado em irmãos de convicções tais que iniciam trabalhos locais que acompanhem seu pensamento. Isso é absolutamente normal. O que não é normal e nem correto é ir a igrejas que foram fundadas por outros irmãos, se infiltrar entre os mais incautos e imaturos, implantar em suas mentes idéias tais criando uma ou mais facção numa igreja local e independente, que normalmente acaba em divisão do trabalho. Esta atitude sim, eu condeno veementemente, pois isto não está certo. A meu ver, é mesmo pecado.

Encerro dizendo duas coisas. Primeiro, é que há menos mal, se é que há algum mal nisso, em receber um irmão denominacional de vida e testemunho aprovado na mesa do Senhor do que receber um destes irmãos conhecidamente sectários para ministrar em nossas igrejas. Aqueles normalmente se limitam a participar dos elementos e não se intrometem em assuntos locais. Estes, pelo contrário, desrespeitam a autonomia da igreja local ao querer forçar seus pontos de vista particulares e desrespeitam a liderança local ao incentivar membros sob o pastoreio do presbitério a se afastarem dos irmãos. E muitas vezes ainda citam o versículo de II aos Coríntios 6:16, 17 para justificar tal atitude sectarista. Segundo, é que se o leitor nunca praticou uma das coisas que eu citei, não há motivo para se sentir atingido pelo que escrevi.

Deixo então a pergunta: de quem, segundo a Palavra, devemos nos separar?

 

Jabesmar Guimarães

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